Você


                                                  Você.
 Vocês se conheceram ainda na escola, viveram um romance. Trocavam beijos, conversavam sobre política, literatura e filosofia. Seu corpo era o lugar mais propício para a criação de borboletas, elas esfervilhavam, cresciam sem ordem e sem controle. É, talvez fosse a euforia do primeiro beijo que te fez acreditar em conto de fadas, só não sabia que seria estilo a princesa e o sapo na versão piorada.
 Ele era bonito, engraçado e inteligente. Só faltava o cavalo branco para ter o pacote completo. Ele mandava boa noite e ficava eufórico quando te via e, você o chamava de amor. Amor? É, nessa coisa de acreditar que ele era tudo e que seriam um só. O problema é que ele queria ser um só programado, com dias contados e você queria o alvoroço de ser a todo instante nós.
Mas você é teimosa, afinal seu signo é escorpião, e ignorou todos os avisos que o universo poderia lhe dar e decidiu, por conta própria, continuar a amar aquele que só te queria aos poucos, contado.  E de migalha em migalha tentava suprir seus anseios e suas necessidades se convencendo de que um amor escasso era tudo o que precisava.
E a vida continuou nesta monotonia exacerbada de sempre ver o mesmo filme com ele, receber os mesmos carinhos, mesmos afetos, dê tempos em tempos ele te procura e depois vai embora. Você já se acostumou com as suas saídas com a falta da adrenalina, de a cada dia se encantar menos e, de repente, percebe que já não lhe causava nada.
           Sem querer, por um momento de epifania, descobre: você foi traída este tempo todo. Traída não por um corpo, uma pessoa. Traída pela ilusão de se acreditar que era amor, foi traída pelo tempo que ele nunca deu para você, das madrugadas sozinha, das mensagens sem nunca terem sido visualizadas, da falta de carinho.
           Ele é feio, chato e burro. Ele nunca terá um cavalo branco, na verdade, ele nunca teve nada e que o amor, ou a noção que você tinha foi fruto de uma ilusão construída por você mesma. O amor não passa de uma farsa, uma brincadeira sem sentindo e, aos poetas que se revoltam no tumulo, você tem a resposta: Eu já sei disso, e você?

- Larissa Formigoni

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